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Reflexões

Tá complicado.

Sábado foi um dia de reflexão. Parei quieto em algum canto de uma festa e observei todas as pessoas, elas conhecidas ou não. Olhava os rostos e me magoava rasamente comigo mesmo. Percebia que ali tinha muita gente magoada comigo. Muita gente com esperança de ter algo de mim que nunca prometi.

Por que então as pessoas se magoam? Eu não entendo, mas mesmo assim fico mal comigo mesmo.

Fico mal por não atender às expectativas, mesmo que não tenha me proposto a isso.

Outra coisa que me deixa muito chateado é a capacidade das pessoas de estragarem algo. É incrível. No exemplo, uma amizade. Amigo confia, amigo não desconfia. Então, por que isso acontece? É difícil entender. Não tento. Apenas acho que temos que nos afastar disto, mesmo que acabemos sem pessoas ao nosso redor.

Se o mundo está desse jeito, eu não preciso participar. Não sou hipócrita, não sou mentiroso. Pra todos que me acusam de algo que não sou, reflitam bem.

Tempo de reflexão.

Aprender a contar...

Tá na história do mundo, da vida. Deus fez o Sol, fez seu correspondende: a Lua. Deus fez a Luz, fez seu correspondende: a Escuridão. Seriam estes então pares? Não.

Como já disse uma vez o gaucho Martin Fierro, personagem do escritor uruguaio José Hernández:

“Uno es el sol, uno el mundo,
sola y única es la luna
ansí han de saber que Dios
no crió cantidá ninguna.”

Deus não criou quantidade nenhuma. Criou cada coisa como única e individual. O homem, estúpido homem, passou a dar quantidade às coisas únicas quando aprendeu a contar. Assim, a vida perde aos poucos aquela parcela de singularidade que tinha.

Assim, ao saber contar, o homem estipulou os números. Malditos números. Uma pessoa é mais velha que a outra, mais pesada que a outra, mais magra que a outra, mais inteligente que a outra etc. Sempre essa danada comparação. Pra que tudo isso? Cada um tem seu valor. 

Os anos da nossa vida passam por passar. É como se estivéssemos brincando de esconder e estamos contando, de olhos fechados. Contamos um, dois, três, quatro, num ritmo vagaroso. A partir da primeira dezena, dez, onze, doze, treze, quatorze, damos uma aprumada na contagem e fazemos soar mais rápido. Quando entramos na contagem dos vinte, vintium, vintidois, vintreis, vincatro, vincin, vinseis, os números voam. Eles perspassam por nossos lábio como se fossem foguetes. E assim vamos crescendo. Hoje tenho vinte, amanhã vinte e um. 

Qual é a contagem da tua vida? Quando sairemos para procurar? Procurar o quê?

Paciência...

Se cada dia cai (Pablo Neruda)

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
Espera o trem passar e depois te apruma a caminhar sobre os trilhos dele. O trem é teu destino e este corre na tua frente. Siga, então, suas pegadas, suas pistas. A cada curva que falte os ladrilhos para teu destino passar, espere. Espere a próxima volta que o teu trem fará e nela surgirão os trilhos que faltam para teus pés pisarem.

Não corra mais que o trem. Invoque a paciência que nos foi dada. Não tente tu mesmo construir a estrada já construída. Apenas espere. Tua curva estará ali, paciência. O fim deste caminho? Apenas os passageiros que tu ainda não conheces, de um trem que tu ainda não alcançastes, te mostrarão o fim da jornada.

Chuva de verão

Os pingos que caem do céu batem em meu corpo como um aviso. Eles me dizem que estou vivo, que não sou um andarilho morto-vivo, daquele tipo sem expressão e sentimentos nenhuns. Passo a mão pelo cabelo encharcado e percebo a maciez dos fios molhados. A chuva de verão vem no lugar da tempestade de inverno.

A diferença é que uma renova e a outra te suga. No verão, tomamos banho de chuva por ser renovador. Já no inverno, usamos guarda-chuvas para que os pingos não peguem um pouco de nossa alma.

Não é feliz aquele que usa guarda-chuva ou se proteje em dia de chuva no verão.

O Sol, aliado a alguns fatores, exprime toda a vitalidade que é esta estação. Não por menos, a Lua faz seu papel: relaxa o ser humano. Nessa probabilidade, podemos entender o mundo como feito de coisas únicas e não de pares.

A Lua é somente uma e não o par do Sol. Se assim fosse, tiraríamos a singularidade de cada. Por que dizer que temos de encontrar a alma gêmea se esta não existe? Os pares não se alinham mais, pois a máxima está correta: cada um com sua individualidade.

Então, por isso que podemos afirmar que a Lua se aproveita do Sol, tanto quanto o Sol se aproveita da Lua. A perfeita sincronia destes dois astros nos mostram a verdade. Nos mostram que é possível ser um só e ser dois ao mesmo tempo.

Pra ti

Lembro sim. Ah se lembro. O gosto, o toque, tudo.

Parece mentira, mas não vê que os caminhos sempre se cruzam? O mundo dá tantas voltas que nos dizem que não é para acabar ali. E elas fazem nós nos esbarrarmos pelos corredores da vida.

Quer fazer um teste? Pegue seu ex. Se você excluiu ele totalmente da sua vida e tem a certeza que acabou tudo mesmo entre vocês e não ficou nada mal resolvido, tente pensar nas vezes que seus caminhos se cruzaram desde a separação. Poucas ou muitas?

Se muitas, o Universo a diz que alguma coisa ainda está pendente nesta relação. Se poucas ou quase nenhuma, o Universo a diz que é para seguir em frente que aquilo acabou mesmo.

E tem gente que insiste em contrariar o Universo. Somos seres ínfimos perante a grandeza do mistério que nos cerca. Devemos apenas decodificar essas mensagens que nos são passadas diariamente.

É na aflição que te digo: se não houve nós, é por tua contrariedade perante a lei do Universo.

Precisa dizer mais?

Não preciso dizer mais nada após esse texto que vou publicar aqui. Dizem que é de autoria de Arnaldo Jabor. Se é ou se não é, só sei que essa pessoa me compreendeu, assim como compreendeu muitas outras pessoas que se achavam incompreendidas nesse mundinho.

"Sempre acho que namoro, casamento, romance tem começo, meio e fim. Como tudo na vida. Detesto quando escuto aquela conversa: 'Ah, terminei o namoro...'. 'Nossa,quanto tempo?'. 'Cinco anos...Mas não deu certo...acabou'. 'É não deu...' Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou. E o bom da vida, é que você pode ter vários amores!

Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam. Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro?

E não temos esta coisa completa. Às vezes ele é fiel, mas não é bom de cama. Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel. Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador. Às vezes ela é malhada, mas não é sensível. Tudo, nós não temos. Perceba qual o aspecto que é mais importante e invista nele.
Pele é um bicho traiçoeiro. Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai- mamãe mais básico que é uma delícia. E as vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...

Acho que o beijo é importante... e se o beijo bate... se joga... se não bate... mais um Martini, por favor...e vá dar uma volta. Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra. O outro tem o direito de não te querer.
Não lute, não ligue, não dê pití. Se a pessoa tá com dúvida, problema dela, cabe a você esperar ou não. Existe gente que precisa da ausência para querer a presença. O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta. Nada de drama!

Que graça tem alguém do seu lado sob chantagem, gravidez, dinheiro, recessão de família? O legal é alguém que está com você por você. E vice versa. Não fique com alguém por dó também. Ou por medo da solidão. Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado. E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento. Voce!

Tem gente que pula de um romance para o outro. Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia? Gostar dói! Você muitas vezes vai ter raiva, ciúmes, ódio, frustração. Faz parte. Você namora um outro ser, um outro mundo e um outro universo. E nem sempre as coisas saem como você quer...

A pior coisa é gente que tem medo de se envolver. Se alguém vier com este papo, corra, afinal, você não é terapeuta. Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível. Na vida e no amor, não temos garantias.
E nem todo sexo bom é para namorar. Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar. Nem todo beijo é para romancear. Nem todo sexo bom é
para descartar... Ou se apaixonar... Ou se culpar.

Enfim... quem disse que ser adulto é fácil?

(Por Armaldo Jabor)"

Como saber que você está vivo?

Antes que venham e tomem sua alma por não fazer uso dela, apaixone-se.


Minha dificuldade é essa. Parece que não estou vivo, parece que sou invisível aos sentimentos que açoitam a humanidade. 

Como posso estar perdido?
Se não tenho para onde ir?

Esse trecho da música The Unforgiven III do novo álbum do Metálica me dá esperança e ao mesmo tempo desprazer.

Ao mesmo queria ter a sensação de estar perdido. Quero um rumo. Um norte. Saber que está perdido é saber que tem um caminho para onde ir. Agora, não ter rumo significa não saber se está perdido. É assim que a vida funciona para muitos.

Eu sigo no meu barco dourado, navegando em círculos, à procura de um buraco negro - que me leve de volta ao meu rumo (qual?).  O oceano é profundo e é nele que me descubro, pois ali estão minhas tranqueiras jogadas fora.

Perdi meu timão e sigo remando eu sozinho com pequenos remos. A tripulação toda, após o motim, me deixou na solidão de meu convés. Sigo o fluxo das ondas, para ver onde esse oceano vai dar.

Fico na espera de um ciclone, que leve o meu barco dourado à uma ilha qualquer. E que lá esteja meu rumo.

Metrossexualismo

O metrossexualismo hoje é visto como um parente próximo do homossexualismo. E isto está errado. Tá certo que os que mais seguem esta tendência são os homossexuais. Mas também existem homens que gostam de se cuidar, de tratar de sua aparência (e não parecer um orangotango), de cozinhar, de ser fashion.


As mulheres não vivem de amores pelos gays porque eles se vestem bem e tem "n" qualidades?

Pois, aí está o híbrido: o metrossexual. Um homem bem resolvido com sua masculinidade e que sabe o que fazer para atrair a atenção.

Como saber se você ou é metrossexual ou falta pouquinho:

1) Seu banho demora mais de 30 minutos.
2) Você arruma o cabelo para o deixar impecável.
3) Fica um bom tempo escolhendo uma roupa para vestir.
4) Sempre procura fazer algo novo, seja no penteado ou mesmo no vestuário.
5) Adora perfumes.
6) Tem um guarda-roupa vasto.
7) Faz cortes diferentes de barba.
8) Passa base nas unhas.
9) Tira a cutícula.
10) Usa fixador no cabelo.

Estes são alguns pontos. Existem muito mais. Agora me digam: há algum problema em um homem ser assim?

Se as mulheres reclamarem, merecem ainda os trogloditas da pré-história. Se queixam de que o homem não se arruma, é estúpido e tudo mais. E quando se tem uma evolução no quadro masculino, simplesmente taxam de maricas.

Eu apóio a causa dos metrossexuais. Por que se sentir bem é fundamental.

Ego massageado

O céu abriu, a chuva passou. Tempo de ressequidão em meu quintal. O motivo é simples: tive o ego massageado. Fui posto em um pedestal e idolatrado.


A sensação é maravilhosa, mas perigosa se tu for exposto por muito tempo. Estou inebriado ainda pelo poder dessa massagem. Ela nos deixa confiantes, prontos para o próximo passo e olhando com desdém da última pequena depressão.

As vibrações que nos envolvem são algo fascinante. É difícil entendê-las. É difícil superá-las. Por isso que quanto pior estivermos, mais difícil será o caminho para sairmos disso. E por isso que quanto melhor estivermos mais facilmente as coisas irão se ajustando.

Fique bem, sempre! O otimismo dá poder e traz o vigor para encarar o pessimismo. Olhe para as coisas tristes e procure nelas o lado alegre. É assim que tu conseguirás enxergar aquela luz, logo ali, debaixo dos teus olhos, porém, antes, fraca demais para a tua cegueira encontrá-la.

Os dias de chuva

As gotas de chuva caem e minhas lágrimas as acompanham. Chora o céu e eu chovo por dentro. Há sensação pior que a de estar carente, precisando de um carinho?


Fico pensando no Karma. Talvez este seja o grande vilão e compositor da meia cancha de nossas vidas. Por exemplo: quando o Karma ataca e chega ao ataque, deixa vulnerável o meio-campo, possibilitando um contra-ataque - que sempre existe por sinal.

Quer dizer que, quando faço uma coisa boa, uma outra coisa de mesma proporção voltará para mim. E assim também acontece quando se faz besteiras e coisas ruins.

Assim tem sido por toda a eternidade de minha vida. A minha benevolência de antes voltou em pequenas formas. Já o que fiz de ruim voltou em dobro e sempre causou mais danos a mim.

O Karma não passa de um príncipe. O mesmo que Maquiavel descreveu. Ele faz o bem aos poucos e o mal de uma vez só. Mas o problema é que isso é bom só para o príncipe que continua com seus poderes e brinca com seu povo.

Não idolatro mais o príncipe Karma. Tomo a coragem (coragem?) de fazer e sofrer as conseqüências depois. 

E insisto em dizer que a coragem não existe. No lugar dela, existe a impulsão. E é essa mesma que me leva ao encontro do que quero.

É a impulsão que fez eu dar um basta na espera.

Indiretamente direto

Tu já desejou algo ou alguém, mas estudou o campo primeiro? Só pra ver se jogam o mesmo jogo que tu?

O dia-a-dia é assim. A atualidade se resume num grande Orkut. Tudo não passa de contatos.
Por isso me arrisco a dizer que não é o Orkut que está se transformando na nossa própria vida e sim o contrário.

Antes nós conhecíamos pessoalmente alguém e aí então adicionávamos essa mesma como amiga virtual. Mas agora inverteu-se isso. Primeiro amizade virtual, depois a real.

Antes ligávamos pra saber se amigos estavam bem e depois mandávamos um scrapp. Agora, mandamos um scrapp dizendo que qualquer dia iremos ligar para saber como vão as coisas.

Antes, tirávamos fotos espontaneamente e, se ficassem legais, colocávamos no álbum virtual do Orkut. Hoje, o que pauta a nossa saída é justamente novas fotos para o tal álbum.

Este foi um desabafo virtual. Confesso que estou viciado.

Voltando à prerrogativa. Como as pessoas reagem ao te conhecer? Certamente, elas fazem uma análise errônea da tua pessoa. Agora, o desejo. Moça, tenho algo a te dizer, mas fazê-lo-ei por entrelinhas. Não me deixarei tomar por um acesso de não-pensar e não me sucumbirei à loucura da provocação.

Quando penso, os olhos orbitam por entre os mares negros da minha mente. Lá, eles pegam um barquinho e vão até o meio do oceano junk que é esta cabeça. Ficam pescando. Os olhos, pescam um, dois, três, pensamentos. Trazem eles os pensamentos de volta à orbita ocular e assim eu vagueio numa desilusão desmanchada de semi-realidade.

Mas se os fecho novamente, acabo por mastigar esses pensamentos. Degusto cada momento deles. Garfo e faca, e pratos sujos no Neurônio's restaurante. De supetão sou expulso da fantasia e volto ao manjar dos semi-deuses.

Penso no teu corpo, junto ao meu, e os dois freneticamente alucinados pela explosão de adrenalina que pulsa em nossa mente. Eu estou ali, de corpo, alma, pensamento. Já tu, te desfiguras a cada balanço do tal barco, no meu junk ocean. 

A cada piscar sinto que tudo não passa de um vagalhão forte de pensamentos.

Alguém me diz: "Queria ser uma mosquinha". Paro tudo. Entro em transe. A cena reflete no espelho das minhas pupilas. Vejo claramente eu em uma sala mal iluminada. O som da máquina de escrever. O cenário é um escritório dos anos 40. Estou a escrever o romance de minha vida.

O suor me escorre pelas têmporas. Passo as costas da mão direita sobre elas e me refresco indiretamente. Eis que me surge um vulto à pouca luz que me dá a força de escrever. É apenas uma mosquinha. E ela vem ziguezagueando, pra lá e pra cá. Seu som retumbante em meus ouvidos: bzzzzz. Perco a concentração e teclo algo notoriamente errado em meu curso. Retiro a folha da máquina e afasto a mosca com a mão esquerda.

Levanto da cadeira e vou até a janela. A noite está refrescante, não faz frio, muito menos calor. Me debruço sobre o alpendre e ali de cima observa a calmaria da noite.

Eis que me pousa a mosca em meu braco direito. Ali ela caminha devagar, tateando. Sinto um leve arrepio que me sobe a espinha. Uma gota de suor frio desce pelo nariz e cai na palma da mão direita. Ao fazer uma tentativa para secar a tal gota, observo atentamente a movimentação da mosquinha.

Ela, até então me dando prazer bizarro, caminha até meu suor. Ela pára, passa as patas pelo molhado e se molha. As moscas também sentem arrepios. Ali, sob a luz da lua, fomos cúmplices de uma irreverência, de um deleite para ambos.

Só que a lei da selva é rígida e, no instinto do gozo, acabo esmagando a mosquinha com minha mão suada de prazer.

Já tive mulheres...

...de todas as cores, de todas idades, de todos gostos, de todos trejeitos, de todas as formas.
Amo a exuberância da mulher brasileira. Amo, ainda mais, o jeitinho que só a brasileira tem. Sou um eterno apaixonado. Alguns (algumas) não irão compreender-me.

As mulheres devem ser amadas como o calendário ama os dias. E as folhas deste calendário passam e dão lugar a outro número. Assim, o tempo passa. As mulheres são dignas de um amor tal qual as ondas para o mar: as ondas massageando suas costas.

As mulheres são casadas com sua própria beleza. São adornadas de mistérios, que um dia hei de conhecer.

A verdade é que não gostaria de tal feito, pois acabaria o meu encanto. Acabaria a paixão que sinto por cada uma, como se fossem dias no meu calendário.

As mulheres nos amam, sim. Mas amam do jeito delas, o que é bem diferente da maioria dos homens. Mulher é sinônimo de orgulho, é uma gota d'água que, frente à seca escaldante do deserto do nordeste, nunca seca - apenas para manter a pose esbelta e firme.

As mulheres representam cada gota do meu oceano.

Cada passada do ponteiro do relógio me dói o âmago. Sinto que perco, a cada segundo, uma mulher em minha vida.

Mas olho o calendário, e sei que elas estão ali, nas folhas atrás. Retrocedo. Passo o dedo pelas folhas amareladas pelo tempo, e vejo as fotos do catálogo: Ah, que tempo bom!

A primavera está por chegar.

Memórias póstumas

Não, não morri ainda. Ainda tenho uns 70 anos pela frente. Apenas estou escrevendo para me lembrar lá na frente, antes que desintegre mais a minha já tão afetada memória. Sofro de alguma síndrome que me faz esquecer das coisas, datas, pessoas, ações, momentos, tudo. As pessoas pensam que sou apenas um idiota, abandonando-as de um jeito que as torne órfãs de minha presença.


Não sou idiota. E se um dia falei contigo, pode ter a enorme certeza que está guardado(a) nessa salinha da minha memória, a qual não encontrei a chave (muito menos o caminho). Às vezes topo com a chave no corredor da minha paciência, mas não encontro a localização. Às vezes esbarro na porta desta sala, nas infinitudes de minhas memórias, e acabo lembrando que deixei a chave nalgum outro lugar dos meus neurônios.

Raras vezes, tenho a feliz coincidência de levar a chave comigo. Esbarro na porta e abro-a. Lá dentro, todas as pessoas, coisas, datas, ações e momentos seguem em fila para a sala de armazenamento.

Algumas se perdem no caminho, mas muitas salvam-se. É assim que entro em conflito comigo mesmo - e tem sido assim todos os dias de minha existência.

Labirintos são a minha constituição. Portanto, facilmente me perco nas entranhas do meu pensar.

Reforço mais uma vez o pedido desta humilde pessoa: se tu te lembras de mim, eu lembrarei de ti.

Mesmo que esteja lá na maldita salinha perdida da minha memória. Não te abandonei, não te esqueci.

Saiba que me esforço tanto para encontrar-te durante todas as horas do meu dia. Se não encontro, amanhã esqueço o que estava fazendo e a procura começa do zero.

Saiba que, um dia, decorarei o caminho.

Mortes banais

O ser humano não evolui mais. Digo isso, pois constato que a vida chegou ao ápice da parábola. Sim, aquela mesma parábola matemática que estudamos no segundo grau. Aquela em que depois do ponto culminante vem a queda. A banalidade das motivações para as mortes que ocorrem hoje em dia mostram isso. Fui acometido a um episódio que me deixou boquiaberto com a incapacidade de diálogo da raça humana. Aí está a evidência de que estamos nos aproximando dos urros guturais das cavernas para nos comunicarmos.

Foi o seguinte: estava eu em um aniversário. Ao final, estávamos eu e mais dois amigos na porta de entrada do salão de festas, esperando a carona para ir embora. Passou uma garota por nós e meu amigo tocou-a no braço. Até aí tudo bem, não fosse um cara mal encarado chegar e peitar meu amigo. Ele dizia que ia "dar tiro", que ia "furar ele de bala". Fiquei um tanto apavorado com a falta de diálogo.

Custava muito o cara ter dito: "olha, cara, ela tem namorado. E este sou eu". Pronto, acabaria ali. Mas não. Foi uma queda de braço para ver o mais machão. Confesso que aprendi ontem a ter vergonha de ser um humano. Tive vergonha dos modos como nos tratamos. Tive vergonha da banalidade que nossas vidas estão se tornando a cada dia.

A questão é: não podemos retroagir. Não deixemos que nossa vida se torne uma parábola e sim uma constante evolução. Desse jeito nós mesmos destruiremos o que nós fizemos, pra depois criar o que destruimos. Não tem lógica. A lógica foi morta pelos nossos antepassados, trancafiada a sete chaves em algum navio fantasma que se perdeu no fundo de um oceano inexistente.

Modelo de mãos

Hoje (agora há pouco), fui submetido a um novo olhar: o de modelo de mãos. O causo é que no jornal onde trabalho precisavam realizar fotos sobre sujeira. Fui convidado a tirar as fotos assim que sentei em minha cadeira. Não recusei pelo óbvio motivo de querer ajudar.

Foram diversas fotos, em diversos estilos e poses. Ô vida difícil de um modelo de mãos. Elas precisam estar sempre bem cuidadas, com as unhas aparadas, com a pele sedosa. Sujei-me com carvão para a melhor explicação da foto.

A superficialidade da "profissão" é enganadora. E tomo por metáfora essa lida. No dia-a-dia, na rasa alma de nossas emoções, devemos estar atentos e zelosos pelo que nos cerca. Digo rasa, pois a alma segue tais atribulações como um poço: a profundidade é algo que se alcança quanto mais cavarmos dentro de nosso âmago.

Devemos nadar no raso e respirar ao fundo. Nas relações, acredito que tenho mais convicção ainda de que tudo se resumo a superficialidades. Quando conhecemos alguém, logo criamos mil e uma perspectivas acerca daquela pessoa. Estas vão se diminuindo até chegar a no máximo três ou duas. E muitas vezes nos enganamos. Nos atrelamos àquela visão que queremos da pessoa, mas que não é a verdadeira.

Por isso, a solução passa a ser: defina-se. Ou nade no raso ou visite a obscuridade da profundeza de sua alma. Mas fundamentalmente, antes de tudo, conheça-se. Apenas assim, poderá ser capaz de julgar a partir de sua ótica apurada.

Seja um modelo de mãos. Mostre-as sem mostrar o resto do corpo. Ou mostre o conjunto todo e aceite tomar todas as consequências das relações humanas. Quando mostrar só as mãos procure passar a melhor das intenções, para que as pessoas não percebam o resto do corpo sujo. A alma é um oceano junk. E é nele que ficam nossas piores virtudes e nossos piores lados.

Meu mundo sem USB

Estou pasmo. Sem internet há mais de 3 dias, recorro à web apenas no trabalho. Para complicar, meu celular molhou e não funciona mais. Estou órfão da tecnologia, que, em muitas vezes, foi minha salvaguarda. Agora, me contento até sábado com um celular que não faz meu tipo, por ser um tanto difícil de se mexer. Perdi minha agenda de contatos, e, com ela, uma parte de mim. A sorte é que recupero isso logo.

O que aconteceu com as nossas vidas? Cadê os bonecos "Comandos em ação"? Não vai demorar até essa cena crescer mais.

Vai ter um momento em que nós, humanos cibernéticos, iremos aprender por meio da tecnologia. Colocaremos um tipo mais aperfeiçoado de pen drive na nuca e escolheremos o que quisermos acolher de informação. Ler jornal será do mesmo jeito. "Querida, me traga o jornal de hoje". "Sim, querido". O diálogo pode retroceder aos dias atuais, mas a cena do filme seria de uma mulher entregando um tipo de cápsula informativa a um homem. Ele, mais uma vez, colocaria a tal cápsula na entrada USB de sua nuca e assim leria os mais diversos jornais do mundo.

Seríamos poliglotas. Não haveria mais falta de comunicação. Até o amor seria um software incorporado aos nossos corações eletrônicos. "Compre agora o mais novo programa Amor XP. Ele vem com variações no tipo de paixão e com correções de bugs anteriores". Ah, esses programadores! Já notou que estamos em um vórtice e sendo sugados para o mundo dos "nerds". Até o nome deles mudou: "geeks". Os nerds estão mais descolados. E, discretamente, fazem um mundo cheio de tecnologias. E assim, vamos tornando eles os maiorais. Pode?

Pode, sim. E é bem feito para nós, que não aprumamos nosso faro às maravilhas tecnológicas. Bem feito para nós, que ríamos daqueles que montavam robôs e eram excluídos das rodas sociais quando pequenos - enquanto nós brincávamos de bafo ou bolinha de gude. Eles choravam por fora, e bolavam planos maquiavélicos por dentro.

Maluquices à parte, considero este avanço tecnológico uma coisa natural do mundo. É a evolução, como diria Darwin. O maior problema é que o computador, por exemplo, está 25h presente nas nossas vidas. Trabalhamos com ele, ou com um periférico tecnológico semelhante. Chegamos em casa e vamos direto acessar o orkut, msn, skype, e outras rede sociais.

Em vez de o computador fazer parte das nossas vidas, nossa vida faz parte do computador. É uma lógica inversa. A dependência prejudica e muito. Mas, pensemos, o que nos resta?

Não nos resta nada. Apenas temos que nos conformar com tudo isso e entrar de vez no mundo tecnológico. Devemos nos tornar geeks, com nossos pen drives em punho no lugar de espadas, nossos antívirus no lugar de escudos etc.

Afora estes pensamentos, só quero voltar a ter vida no orkut.

Vidas perdidas

Assisto à bizarrice da morte nos bastidores da minha vida. Observo todos os sorrisos que se foram deste circo. Olho com cautela a jaula dos leões à minha esquerda, feras estas que devoram o mundo com a fome insaciável da destruição. Os mágicos mudam as coisas de lugar. Passam daqui para acolá coelhos, cartas, almas. O mesmo espetáculo é repetido todos os dias durante todos os anos. Algumas interrepções são inevitáveis, mas nunca nos desconectamos de nosso circo da infância. Os palhaços já não têm tanta graça, os leões continuam sedentos, os mágicos não surpreendem. É a rotina da vida. É o apreço aos bons cuidados. Uma soma infinita que tem picos de explosões. A vida é sim afoita e a morte é bizarra. Afoita, pois em todas as curvas da nossa estrada aceleramos. Queremos provar o gostinho de tocar com a ponta dos dedos a sensação de algo sublime. A minha experiência com a morte de pessoas próximas me diz que não há nada correspondente à essa sensação. É apenas o fim de um túnel. E no fim deste túnel está apenas uma reta. Uma reta chata. Vejo a maioria dos que cresceram comigo indo em busca desta reta, afoitamente, antes do tempo. Nem fizeram suas curvas ainda. Deixaram meu circo em falta de palhaços, mágicos, trapezistas, e até leões.

Médiuns

Há alguns anos ia seguidamente em um centro espírita para buscar um pouco de paz. Acontece que tive uma oportunidade de frequentar a "escola" para médiuns do tal lugar. O que se passa agora é uma mescal das minhas emoções sentidas na hora e emoções póstumas, que tento relembrar agora:

A branquidão da cena doía os olhos. Todos estavam trajados com roupas brancas, reunidos em um círculo. As mãos dadas, transmitiam uma energia que eu sentia percorrer afoitamente meus braços, dedos e veias. De soslaio, olhava ao redor. A iluminação fraca dava ao recinto um ar macabro, mas ao mesmo tempo proferia certa grandiosidade religiosa à cena. O mestre dos médiuns era um senhor idoso, com seus 60 e poucos anos e quase nenhum cabelo. Era alto, firme em suas palavras e sincero no ollhar. Ele pediu a todos que fechassem os olhos e imaginassem alguma coisa. Eu imaginei um campo verde com flores demasiadamente coloridas. O vento batia de leve no meu rosto. Eu voava. Abri o olho instintivamente e vi que o mestre chegava perto de algumas pessoas e batia na testa delas. Então, como se num passe de mágica, elas iam ao chão e desfaleciam. Segundos depois, encarnavam personagens como se fossem atores. O mestre estava a três pessoas de mim. Suava e tremia frio. Não sabia o que fazer. Me perguntava o que teria de interpretar se ele batesse em minha testa. E tudo foi muito rápido. Quando pisquei, me deparei com uma figura envolta em branco à minha frente. Era o mestre, que bateu de leve com os dois dedos da mão direita sob minha testa. Me senti fraco. Meus braços tremeram, ar me faltou, as pernas bambearam. Fui ao chão. Como se me tivessem mandado participar daquele show de horrores, fiquei em posição fetal e coloquei o dedão na boca. Como uma criança sem colo, só me importava em chupar meu dedo. Permanecia de olhos fechados: não os conseguia abrir. As vozes ao meu redor eram esparsas, sem sentido. Às vezes sentia um cutucão ou minha bochecha sendo puxada. Voltei aos tempos em que era bebê. Deixei essa mágica me levar. Ao mesmo momento em que sentia tudo isso, uma voz pairava sob a minha mente. Ela perguntava se era real tudo aquilo que estava passando. Tentei me levantar, para verificar se era uma farsa ou não. Não tinha força nos pés. Senti arraigado no chão. Como se fosse para eu ficar ali plantado. Ensaiei um choro leve e logo uma mão desconhecido afagou meus cabelos. Procurei um colo, enfiei minha cabeça entre ele e dormi. Sonhei com o campo verde e florido. Sonhei que voava. Um estalar ecoou em meu ouvido e abri os olhos. Todos se levantaram, observados pelos olhos de quem ficou em pé no círculo. O que me passava na cabeça era se tudo foi real ou um sonho. Acho que todos tinham a mesma dúvida, pois nada se falava. Apenas a cara de dúvida era visível em cada um dos rostos ali presentes. Os que viram pensavam se era brincadeira. Os que sentiram pensavam se era real. O irreal se perguntava se nós éramos irreais. Tudo se confundiu. Fiquei aturdido. Não delimitava mais o real do imaginário. Em casa já, deitado em minha cama e refletindo sobre o ocorrido, apaguei a luz para dormir. Decidi não matutar mais sobre a experiência surreal. O sono fechava meus olhos sozinho e me levava à terra da fantasia. Nem pude perceber quando meu dedo encontrou com minha boca e voltei a ser bebê novamente.

Da ausência e muito mais

O que é a ausência? É a falta de algo? Não seria isso saudade?
Ausência é uma palavra que não existe. É uma palavra que tem conceito, mas não tem ação, aplicabilidade. A saudade é fácil: uma coisa que estava ali, e não está mais, e faz falta. E a ausência, hein? "Estive ausente". "Desculpe-me a ausência". Frases com ausência se tornam difíceis de explicação, porém resumidas. Ela se define para mim como algo que estava ali, não está mais, mas volta. A diferença básica da saudade e ausência: uma é o fim; a outra, a pausa. Enfim, estive pausado por aqui. Muitas idéias percorreram minha cabeça, mas não foi possível retirar a agonia delas de dentro da minha mente. Não as coloquei nuas ao branco papel (ou ao branco papel digital) por falta de tempo, preguiça e tudo o mais. Acontece. Que bom que o que passou por aqui foi a ausência e não a saudade. Em breve mais "pensalentos moucos". Desculpem o trocadalho.

Um leve desânimo

Tô empolgado e ao mesmo tempo levemente desanimado. Percorri a maioria dos acordes que eu conheço. Sei todas as harmonias possíveis entre eles. Desço os dedos no violão procurando uma nota diferente que me faça brilhar os olhos, que faça a voz surgir suavemente e inusitadamente. Procuro desafios, notas nunca antes tocadas. O problema é que aprendi sozinho, não tenho o resguardo teórico de um livro, nem de um professor. Os calos de meus dedos, causados pelas cordas de aço da vida, foram gerados na insistência da solidão. Porém, sinto uma brisa fina que traz o gosto da aventura, da empolgação. É ela que me faz levantar de bom-humor todos os dias. Persisto. Pego o violão todos os dias, na busca de uma nova canção para minha vida. Ainda não a achei. Procuro motivos também. Motivos para extrair a música que me falta dos meus próprios dedos, de minha própria alma. Tenho calma. Ela está na ponta da língua. De vez em quando alguns acordes dela são feitos por mim. Começo a escrever e apago a letra e reseto as notas: Ainda não é pra ser o tema da minha vida.